1º Episódio
2º Episódio
Neste ambiente de selecção natural, de favores mútuos, reciprocidade ou mutualismno, como um pé-de-feijão enrolado a um pé-de-milho, ou um Buphagus no lombo de um búfalo africano, determinados blogs vão cimentando um conjunto de comentadores habituais que afinam pelo mesmo diapasão do blogger proprietário. Gera-se assim um círculo de amigos que raramente estão contra as ideias da casa, portando-se até como um exército de diligentes abelhas guerreiras dispostas a defender a obtusa abelha raínha contra os intrusos, moscas, varejeiras, vespas ou até mesmo abelhas levezinhas e dóceis que apenas pretendem comentar em liberdade de expressão mas de forma desafinada.
Com todos estes ciclos e círculos viciosos, os comentários nos blogs acabam por ser aquilo que o blogger quer que sejam, ou seja, uma oração mais ou menos profunda mas que termine sempre num monocórdico Amém (assim seja). Não há lugar à crítica contundente mas apenas à bajulação, ao “yes man”, ao "porreiro pá", mesmo que em frases curtas e ocas, como "interessante", "fantástico", “extra-ordinário”, "concordo", "lindo", “deves publicar um livro”, “és o maior”, etc, etc.
Milhentos blogs bem iluminados, tidos como referências, inicialmente espaços abertos às divergências e convergências, tornaram-se assim em reuniões de chã, em sítios de masturbação intelectual. Muitos deles deixei de visitar e comentar; Era chover no molhado. Outros, continuo a visitar mas agora apenas para espreitar essas rodas de amigalhaços, mas na expectativa de ver se há alguém a desafinar e qual a reacção da colmeia.
Deste modo, mesmo perante alguns debates sobre a questão da importância ou não da abertura de comentários nos blogs, filtrados, barrados ou moderados, acaba por ser uma discussão igualmente sem sexo nem nexo.
Cada qual que faça como bem entender. Admito que há blogs cuja sobrevivência, financeira. nalguns casos. e intelectual noutros, depende totalmente dessa energia, mas, verdade se diga, embora os comentários sejam uma das características que definem e caracterizam os blogs relativamente a outros conceitos de páginas e conteúdos nesse universo da internet, pela interactividade ou dinâmica que podem suscitar e gerar, são em si próprios uma doença que enferma a vitalidade de grande parte dos órgão dessa blogosfera. E porquê? Porque, admitamos, na realidade ninguém gosta de receber críticas, contradições e correcções, mesmo que feitas de forma fundada e respeitosa. A liberdade de expressão é assim apenas uma quimera blogosférica. A maior parte dos bloggers, especialmente os iluminados, porque não gostam de abandonar a tranquilidade do seu mar, do seu poiso lunático, da sua notoriedade e predominância, continuam a preferir usar os seus lapisinhos azuis, os seus mecanismos de defesa, as suas firewalls, os seus anti-trolls como um preservativo contra infecções e gonorréias de visitantes promíscuos. Afinal, dizem, esta é a minha casa, eu digo o que me apetece, só cá entre quem eu quero e merece, ou faz por merecer.
Assim, de um modo geral, esses blogs seleccionam a sua clientela como os seguranças de uma discoteca chique, que não permitem que algum borra-botas entre de mangas cavas, chinelos e palito nos dentes, a não ser que seja um conhecido jogador de futebol ou do jet7.
Por tudo isto, e porque esta reflexão já vai longa, a blogosfera é em tudo um mundo semelhante à vida real, repleta de classes e cagança. Um mundo de vaidades e de segmentos.
É assim a blogosfera; Democrática mas só na medida do conveniente. Aprendemos uns com os outros. Eu pecador me confesso.