Ainda por aí uma febre política e sobretudo mediática à volta do centenário da República, como se a data fosse algo de transcendente na nossa sociedade, como se estivéssemos a celebrar a descoberta de petróleo na Amareleja ou como se Portugal tivesse conquistado o Mundial de Futebol, ainda por cima com Queiróz.
Antes de mais, confesso que não sou monárquico mas também não serei republicano, pelo menos não me revejo nesta república que foi tomada de forma covarde e que passou pelo igualmente covarde assassínio de quem representava a anterior forma de governo, mas porventura os menos culpados. Não sou, pois, coisa nenhuma.
Desde logo e por isso, nunca consegui ver nesta nossa república uma solução ou um melhor conceito do que o que vigorou durante os anteriores 700 anos, desde logo porque não encontro vantagens de um regime em relação ao outro e vice-versa. Basta olhar-mos para as actuais monarquias europeias para se constatar muita coisa, desde logo que o Poder está longe de estar concentrado na figura do rei ou raínha, mas no povo, e que por outro lado a forma de república seja um garante do que quer que seja, tanto nos fundamentos de democracia, justiça ou desenvolvimento económico. Quer se queira quer não, Portugal tem sido um rigoroso exemplo de uma república falhada e cujos princípios condutores estão ainda a décadas de se darem minimamente como cumpridos. Os ferrenhos republicanos, os líricos ou os fundamentalistas, os que ainda consideram o Buiça um mártir da causa e lhe exaltam o feito do regicídio, esses certamente não concordarão.
Analisem-se alguns factos: Em 100 anos de república, só os últimos 30 anos conheceram uma democracia, apesar de todas as debilidades da mesma; Os primeiros anos da república foram um tempo de trevas, instabilidade política, perseguições à la Afonso Costa e comparsas, confusão e convulsão militares, revolta e instabilidade social e económica, enfim uma autêntica anarquia própria do resultado de um desejo de mudança que não era generalizado mas apenas sectorial, como um implante que infeccionou e foi rejeitado.
A propósito da adesão do povo à causa da república, disse então João Chagas, figura de destaque da causa: “A República faz-se em Lisboa e comunica-se ao país por telégrafo”. França Borges, foi mais incisivo e expressou o ideal republicano de então: “O povo irá para onde o mandarem ir”.
Em 100 anos de república tivemos 71 governos com uma média de 16 meses de vigência resultando daí toda a instabilidade associada nos diferentes níveis. Após 100 anos de república, 10 de anarquia, 60 de ditadura e 30 de democracia o país continua na cauda da Europa e bem abaixo de países onde ainda prevalecem as monarquias, nem valendo a pena dar exemplos.
Em 1880, por alturas do Ultimato Inglês, o PIB per capita no nosso país era de 50% do PIB per capita na Europa (considerada aqui num grupo representativo onde entrem a Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália e Reino Unido). Como consequência do Ultimato Inglês, foi notória a instabilidade política e a contestação sectorial à monarquia e por ela o nosso PIB em 1890 caía para 42% relativamente à referência europeia. Nos primeiros 16 anos da República, a queda do PIB acentuou-se e caíu de 42% em 1910 para 32% em 1926.
Em toda a história portuguesa, e dos dados estatísticos conhecidos, nunca Portugal viveu um período tão miserável como nessa década e meia de república desvairada e anárquica e que demonstrou estar longe do que realmente o país precisava rumo ao progresso. Paradoxalmente, a recuperação económica surgiu com o Estado Novo, que conduziu à ditadura salazarista até 1974, e que à data da revolução, mesmo apesar do enorme e inútil esforço da guerra no ultramar, o PIB tinha recuperado de 32% para 60%, o que não deixa de ser notável até porque nesse período foi o país da tal Europa que mais cresceu.
Estes dados valem o que valem, e valem muito sob um ponto de vista da compreensão das virtudes da nossa república, mas a verdade é que nestes 100 anos nunca mostrou ter valido a pena a alteração brusca arrancada em 1910 ou uns anos antes aquando do regicídio.
É esta república convulsiva, controversa e em muitos aspectos inconsequente que eu não abraço mas que uma grande parte do país está a comemorar e a exaltar.
Mais do que os regimes ou formas de governo, os países precisam é de homens com H grande que sejam capazes de dirigir com competência as sociedades e pautados apenas pelo interesse comum. Ora isso nunca aconteceu de forma plena e por isso decorridos 100 anos de república e quase 40 de democracia, Portugal continue na traseira da Europa e continue mergulhado em crise constante, apenas salpicado por curtos períodos de aparente sucesso mas que rapidamente se desvanecem como castelos de areia ao beijar da primeira onda.
Por isso, a dias da data maior da comemoração do centenário, não deixa de ser perverso ou sintomático que tenham decorridos poucos dias após o anúncio de um pacote de medidas de austeridade extrema pela voz de Sócrates, um professo republicano. É esta a república que estamos a festejar? É este o modelo ideal?
Resumindo, esta é apenas uma república das bananas que tem perpetuado governantes e políticos de um modo geral incompetentes, ou, se quisermos, competentes a governaram-se enquanto que o povo, já sem rei ainda continua e vai continuar sem roque.
- Rui Santos Sá