Por dois ou três dias, o país ficou a orbitar em êxtase na gravidade etéria do clássico do futebol nacional, o F.C. do Porto - Benfica, esquecendo tudo e todo o resto.
Terminado o jogo, e logo que as televisões e jornais esgotem o assunto e concluam as dissecações, autópsias e biópsias, o que só acontecerá lá para o meio da semana, o país voltará à realidade das coisas, ou seja, um país mal governado, atolado em crise, a meter água por todos os lados, enfiado num túnel em que o ténue ponto de luz que há pouco se vislumbrava como uma esperança, algures na extremidade, foi por estes dias extinto por um orçamento que promete mais crise e mais miséria.
Mas os portugueses são bons nesta metamorfose e sempre que há um jogo de futebol desta natureza, ele passa a ser o centro de interesse, o centro do nosso pequeno universo, moldando atitudes e personalidades, absorvendo raivas e rancores.
Para além do desfecho do jogo, que pelos números diz e explica tudo, como uma ampla cesta onde cabe a qualidade individual de um Hulk, que carrega a equipa às costas, onde cabe a qualidade intrínseca do colectivo azul-e-branco e onde cabe o descalabro de uma equipa a anos-luz da qualidade da época transacta, que chegou ao Dragão já com um fosso de 7 pontos, e agravada pelos inventos em cima-do-pé do professor Pardal Jesus.
Ainda o F-C. do Porto não tinha aberto o activo, o que de resto não demoraria, e já se constatava que com as alterações no esquema da equipa, o Benfica estava a jogar com menos um central e com menos um defesa-esquerdo, para além de faltar o Aimar, ausente estando em jogo, e Saviola, que não esteve em jogo. Resumindo, um autêntico harakiri ou mais corriqueiramente, um “baixar as calças”. Adiante, até porque com 10 pontos, mais 1 do confronto, o campeonato está decidido e só por questões de compromissos a procissão vai continuar ritmada até ao adro de Maio onde o F.C. do Porto há-de chegar no andor.
Apesar de tudo, importa reflectir no seguinte: Era apenas uma partida de futebol na qual estava em jogo 3 pontos, os mesmos que estariam caso qualquer um dos intervenientes fosse, sem desmérito, o Olhanense ou o Cascalheira F.C. Apesar disso, todo o clima à volta da viagem do Benfica até ao Porto fez-nos transportar a ambientes de guerra e terrorismo, num qualquer Iraque ou Afeganistão e com o clube lisboeta a pernoitar numa cidade açaimada num perímetro de segurança vigiado por um dispositivo policial desmesurado mas necessário.
Este é o nosso futebol que muitos desejam que continue assim, doentio e motivo de divisões, de faccionismos e de bairrismos que colocam o país ao nível de um qualquer gueto de subúrbio. Um país que chuta para canto a gravidade dos indícios de escutas telefónicas que revelam um sistema instalado e frutífero como se em nome da legalidade se deva assobiar para o lado.
E não se pense que estas coisas só aparecem por ocasião destes jogos e a reboque ou despoletados por "mind games" dos intervenientes; Não. Tenho estado em formação a decorrer no Porto e, nos apartes das aulas e nas conversas de corredor, durante o café ou o almoço, são recorrentes as manifestações desse bairrismo bacoco e provinciano, numa constante alusão aos "mouros", aos FDP de Lisboa e outras bacoradas que só acentuam esse clima que depois há-de enrolar-se como bola-de-neve (ou bolas de golfe) e dasaguar às portas da cidade ou do estádio. Esta linguagem e esta forma de ser e de se pensar está presente tanto nos formandos como nos formadores e explica-se como a acendalha de outros rastilhos maiores. Face a essa crispação quase doentia, os adeptos do Benfica, mesmo que em maioria, calam-se, obviamente.
É esta a realidade e não será de surpreender que depois as coisas sejam como são e que um jogo de futebol que deveria ser um hino à modalidade e ao desporto se transforme numa batalha irracional, de extremos e de confrontos, do tudo ou nada, do mata-mata, tão inúteis como desnecessários mas, paradoxalmente, preciosos para este país, porque pelo menos têm o condão de fazer esquecer outras alarvidades e incompetências tanto na política como na economia.
- Rui Santos Sá